quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Livro

...M. Bergeret considerou alternadamente os in-quarto empilhados contra a parede e madame Bergeret que os substituíra sobre a cadeira, e refletiu que aqueles dois grupos de substância, por diferenciados que fossem no momento presente, por diversos que fossem quanto ao aspecto, à natureza e ao uso, haviam apresentado uma similitude original e a conservado durante longo tempo, quando um e outra, o dicionário e a dama, flutuavam ainda em estado gasoso na nebulosa primitiva.

            “Pois afinal”, dizia ele de si para consigo, “madame Bergeret boiava no infinito das idades, informe, inconsciente, difusa em tênues luminescências de oxigênio e de carbono. As moléculas que deveriam compor um dia aquele léxico latino gravitavam ao mesmo tempo através das eras, naquela mesma nebulosa de onde deveriam sair por fim monstros insetos, e um pouco de pensamento. Foi preciso uma eternidade para produzir meu dicionário e minha mulher, monumentos da minha vida espinhosa, formas imperfeitas, por vezes importunas. Meu dicionário está cheio de erros. Amélie encerra uma alma mesquinha num corpo intumescido. Eis por que é difícil esperar que uma nova eternidade crie enfim a ciência e a beleza. Nós vivemos um instante, e nada ganharíamos em viver para sempre. À natureza não falta tempo, nem espaço, e nós estamos vendo a sua obra!”. 

(Anatole France - O Manequim de Vime)

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